por Giovanni Di Ganzá
Colaboração Renato Candido
Você que lerá este texto, já se perguntou em que medida nós artistas, intelectuais e integrantes em algum grau de movimentos negros o quanto “jogamos contra” a nós mesmos? Digo isto da experiencia que tive ao participar do Evento de Lançamento do Cadernos Negros número 33 e como, um grave fato ocorrido na realização deste evento revelou algo que é, de certa forma, recorrente em nosso meio; o de não nos enxergarmos como possibilidade concreta e cotidiana dentro da luta em fazermos parte desta nação.
Ao receber convite para tocar no evento dos cadernos negros, eu, Giovanni Di Ganzá fui tomado por enorme alegria uma vez que faria parte de algo presente desde a minha infância que é o Cadernos Negros... um evento tão importante para os escritores negros, e sobretudo para uma população negra que busca referenciais também nas artes.
Com certeza eu aceitei o convite e, tamanha entrega, não pensei em cachê, pois quis contribuir da minha forma para um evento desse tipo... é uma questão de somar forças. Obvio!
Sou musico, trabalho também com trilhas sonoras. E era dessa forma que eu colaboraria no evento, eu faria a sonorização para duas atrizes e um ator recitar os poemas.
No local e data do evento, chegamos mais cedo para ensaiarmos detalhes, e maturar idéias da récita. Paralelamente, enfrentamos alguns problemas que não são nossos, mas da própria organização do cerimonial. Isso acontece mesmo em muitos eventos, até esse ponto pode ser normal e extremamente comum alguns contra-tempos.
Iniciado o evento, fomos avisados que entraríamos ao palco em poucos instantes, estávamos no camarim e não tínhamos informação nenhuma do andamento da condução do evento no palco. Entramos em cena, estávamos com uma platéia pouco numerosa, iniciamos nossa apresentação mas fomos interrompidos abruptamente pelo mestre de cerimônia.
Estranho!!!
Muitas pessoas chegavam ao teatro naquele momento e a maioria se encontrava barrada na entrada. Ao que parece, decidiram começar o evento sem uma introdução, sem um aviso que estava por começar... as pessoas no teatro ainda não haviam entendido que o evento já começara e fomos interrompidos na execução de nossa apresentação para que outra atividade viesse a tona.
Nos reunimos em sala anexa para decidir qual procedimento. “Perdemos o chão” por alguns instantes... Entrar em palco e ser interrompido??? Não existe improviso para consertar tal coisa!
Tinhamos ainda outra entrada no ínterim do evento, mas não sabíamos em qual momento uma vez que nem cronograma não nos foi dado... ao que parecia nem haver cronograma.
Decidimos numa rápida votação o nosso retorno ao palco para refazer nossa apresentação interrompida. Tudo desde o inicio. Conversamos com a organização para garantir que outro engano não acontecesse novamente. A questão colocada à direção do evento foi simplesmente realizar o combinado: Se é um evento de literatura, é muito justo que haja uma récita dos poemas. Óbvio!
Parte de nossa equipe artística entrou novamente para anunciar a apresentação, agora completa, de nossa parte no evento... Desde o início... Naquele momento, o teatro tinha público completo. Todos entenderam que o evento havia começado; mas de repente, para grande surpresa, fomos interrompidos novamente.
Procurei me informar com um dos organizadores para saber o motivo daquilo que estava acontecendo. Fui avisado que algum escritor precisava ir embora mais cedo, e eles precisavam adiantar as coisas.
Dei o recado para a equipe, que foi unânime numa decisão: “vamos embora!”. Os organizadores vieram conversar conosco, pois não queriam que fossemos embora, no entendimento deles, haviam outras entradas em palco e poderíamos a qualquer momento consertar um erro que não era nosso. Ali, não eramos organizadores do evento; mas sei, por exemplo, que um cronograma é responsável pela entrada e saída de qualquer um que suba ao palco.
Para tanto, nós tivemos que ouvir por parte dos organizadores do Cadernos Negros frases do tipo: “vida de artista é assim mesmo”, “não sejam amadores” (parece piada), “o nome de vocês está em jogo”. Todas maneiras jocosas de desprestigiar nossas tentativas de fazer parte da cerimonia... Enfim, fomos embora.
Ficou evidente a existência de uma postura não condizente com proposta do próprio Cadernos Negros que é a coletania de poetas negros em suas identidades e diversidades, que é, em si, uma idéia genial! No entanto, um evento desse porte precisa de um mínimo de estrutura para acontecer!
Este acontecimento levanta questões básicas na realização de um evento como este: Afinal o evento é para quem? Por que? Como é?
Ao que parece, isto não estava resolvido para a organização dos cadernos negros. A proporção do evento evidencia mais valor do que a própria realização dele: não importa como será, o importante é acontecer. Isto é perigoso.
Acredito que os cadernos negros fazem o papel de representar um povo, uma classe e sobretudo uma luta que está além de status, joguetes egocêntricos ou “mendicância” artística. Neste sentido, eu acreditava ser uma luta séria por uma causa séria, mas o que vi foi, desrespeito, desorientação, descumprimento de coisas básicas no tratamento às pessoas que estavam lá para colaborar artisticamente no evento, profunda prepotência.
Ao ir embora pensei: Essa cascata de desrespeitos não me representa mesmo! Nem passa perto de me representar, quanto individuo de uma etnia, como cidadão, quanto artista empenhado na arte afrobrasileira.
É recorrente e existe uma imaturidade enorme na causa e na organização destes eventos negros... Porque tudo se resume em se realizar algo “mais ou menos”, tratar “mais ou menos” as pessoas do próprio meio, no citar “mais ou menos” nossos pré-cursores, no querer “mais ou menos” o que a elite branca tem e quer.
Um evento negro não pode se resumir em cópia barata das elites do nosso pais, nem num fac-símile do que são os negros americanos. Falta-nos uma razão quase que espiritual para entender a razão de ver tanto preto junto fazendo arte, a coisa se esvazia em detalhes que nada importam.
Ao que parece, não nos enxergamos como possibilidade. Digo isto no cotidiano, no terra-a-terra dos dias. Assim reproduzimos apenas um desejo de repetir, como se preenchesse o vácuo em mandar e se tornar visivel. Mas não encaramos nosso irmão preto, nossa irmã preta como possibilidade, como mútuo e fortalecimento. Procuramos ainda os holofotes para os únicos que dizem carregar arduamente a bandeira.
É preciso encontrar em nossas atitudes a verdadeira militância, acho inegável a importancia da Quilomboje na colaboração das discussões de identidade racial através da literatura e da arte, mas se algo foi perdido, olhem pra trás, se recuperem, pois é esse o exercicio que cada negro consciente em nosso país tem feito: olhar nossa ancestralidade, e tentar entender que não estamos sozinhos, mas fazemos parte de uma grande familia, dessa forma tratemos todos como verdadeiros "irmãos", e sobretudo como seres humanos com potencialidades infinitas.
Giovanni Di Ganzá é Bacharel músico violonista pela Universidade Cruzeiro do Sul. Integra coletivos artisticos de identidade afro, como o Duo Abanã, Ndimba, Treme Terra, Pé de Moleque, Batakere.
Renato Candido é Bacharel em Cinema, Rádio e TV pela USP e é atual mestrando pela mesma instituição. É Roteirista de curtas metragens e série televisiva.
Acesse á critica da Quiomboje sobre esse fato:
http://www.quilombhoje2.com.br/blog/